Em pouco tempo, a série se tornou a campeã de audiência nos Estados Unidos, e a atriz Farrah Fawcett, morta recentemente, se transformou em símbolo sexual para os homens e em ícone para as mulheres. Seu penteado foi imitado à exaustão e seu famoso pôster de maiô vermelho vendeu 12 milhões de cópias, recorde jamais batido.
Eu, adolescente que se descobria lésbica, tanto queria ter como ser Farrah. Mas, para além da beleza das moças, o que mais me encantava ali eram a força e a amizade do trio: elas dirigiam carrões, dominavam artes marciais e arriscavam a vida para salvar as companheiras.
Essa aliança feminina era algo raro de se ver na TV. Por mais paradoxal que pareça, a série que mostrava mulheres lutando sem desmanchar o penteado plantou uma semente de feminismo em mim.
Na vida real, enfrentando um câncer anal, Farrah Fawcett contou com a ajuda das ex-panteras Kate Jackson e Jaclyn Smith, sobreviventes de câncer de mama e presenças constantes em sua casa. Amizade de verdade. Essas bonecas não são de plástico: são de carne, osso e garra.
PS: Farrah deixou parte de sua fortuna para ajudar mulheres vítimas da violência doméstica.
© Folha de S.Paulo
PS2: hj às 21 hs o GNT exibe o documentário produzido pela própria Farrah Fawcett expondo sua luta contra o cãncer. Será reprisado durante a semana. Confira os horários no site do canal.
Grzes não se conforma: os contribuintes gastaram 37 milhões de zlotys (cerca de R$ 24 milhões) para construir o maior cercado de elefantes da Europa, e o que receberam em troca? Ninio, um elefante que, segundo o deputado, "prefere machos em vez de fêmeas" e não irá encher o cercado de filhotes.
O político está colocando muita pressão em cima de Ninio. Os tratadores do zoológico explicam que o elefante tem apenas dez anos de idade, é muito jovem para procriar e ainda não definiu sua orientação sexual.
Mesmo os paquidermes que vivem nas savanas africanas costumam se envolver afetiva e sexualmente com outros machos. Bruce Bagemihl, zoólogo especialista em homossexualidade animal, diz que entre elefantes africanos é comum que machos formem relações homossexuais duradouras. Muitos só irão copular com fêmeas depois dos 35 anos, "20 anos depois de atingirem a maturidade sexual".
Se a preocupação do deputado polonês é com o retorno do investimento, ele deveria se tranquilizar. Ninio pode (ou não) procriar daqui a 25 anos, mas já é um sucesso. O número de visitantes no zoológico de Ponzan aumentou nas últimas semanas: todos querem ver Ninio, o famoso elefante gay que saiu do armário.
© Folha de S.Paulo
Marcadores: coluna GLS Folha
Modelo perfeita é aquela tão magra que funciona como um cabide, revelando somente a beleza da roupa que veste, certo? Nem sempre.
Um dos novos ícones da música pop alternativa, Beth Ditto (vocalista do The Gossip que se declara "lésbica, gorda e feminista"), acaba de ser contratada pela confecção inglesa Evans para criar sua própria linha "plus-size". Contrariando a regra de que gordas devem usar roupas discretas em tons pálidos, Ditto promete levar às lojas o estilo espalhafatoso que a consagrou nos palcos.
Ela marca presença e atrai olhares de fashionistas nos muitos desfiles de moda a que comparece. Karl Lagerfeld ficou impressionado com a energia da cantora após assistir a seu show durante a recente Paris Fashion Week: "Ela é o oposto de tudo o que é moda hoje -uma beleza extraordinária".
A editora de moda do jornal inglês "The Times", Lisa Armstrong, acredita que o sucesso de Ditto como ícone fashion se explica porque "a moda gosta de exageros". "Pode-se até argumentar que Ditto não é melhor exemplo de saúde que as modelos magérrimas’’, continua Armstrong, "mas não se pode questionar sua autoconfiança".
De fato, Beth Ditto tem uma confiança maior que sua cintura roliça. Autoestima, aliás, forjada no seio de uma família pobre e amorosa e depois fortalecida pelas lições preciosas do movimento Riot Grrrls, que nos anos 90 uniu punk rock e feminismo. Viva as gordinhas!
© Folha de S.Paulo
Ditto no show da Paris Fashion Week dando um mosh!!!
Assim, Musset manda tocar todos os sinos da Galileia e pergunta às garotas que encontra pelo caminho: "O que é o que é? Tão manco como Ganso, parado como Pausa, rápido como Relógio, molhado como Córrego, mole como rabo de Rato, duro como Coração, salgado como toucinho, amargo como Bile, doce como entrada, ácido como Cidra passada, prezado como Querida e vil como Furúnculo; que está sempre presente ainda que nunca à Vista, tão leve como Lenço e escuro como Corvo?". Musset revela: "É o Amor".
E continua: "O que é o que é? Tão mansa como Teta de Vaca, forte como Peão, quieta como Tostão, tão segura quanto pense-o-que-quiser ou certa-está-você? Sabedoria. E qual deles você vai querer?"
Amor ou sabedoria? As garotas não respondem, fazem que não ouvem e seguem suas vidas. Desolada com as jovens de ouvidos moucos, Musset então pergunta a uma senhora de idade se há mais o que aprender. A velha responde: "Aos 60 você já está dez Anos cansada de sua Sabedoria". Rapidamente, Musset dá meia-volta e reconsidera a ordem para que toquem os sinos.
© Folha de S.Paulo
Marcadores: coluna GLS Folha
Há poucos dias, uma jogadora lésbica foi banida do Live por infringir a regra que proíbe os usuários de escrever nos perfis conteúdos de cunho sexual, racista ou que possam ofender outros jogadores. Como a jogadora declarava-se lésbica (cunho "sexual") e isso ofendeu outros jogadores, foi cortada da comunidade.
A história, porém é um pouco mais complicada. A jogadora era perseguida virtualmente por outros usuários. "Eles me seguiam por vários jogos, mapas e cenários, convocando outros jogadores para se voltarem contra mim porque não queriam conviver com coisa ruim." Ou seja: a regra puniu a vítima e protegeu seus detratores.
Ciente da dificuldade que é legislar sobre uma minissociedade virtual, a Microsoft, dona do Live, pediu a ajuda ao Glaad (organização gay e lésbica contra a difamação) para elaborar um sistema mais eficiente que iniba esse tipo de perseguição.
Não é tarefa fácil. Sites de relacionamentos e redes de jogos estão formando uma geração de covardes. Protegidos pelo anonimato e pela ilusória imaterialidade do mundo virtual, eles ofendem, perseguem, xingam e depois desligam o computador como se nada tivesse acontecido. Sem consequências.
© Folha de S.Paulo
Marcadores: coluna GLS Folha
Logo após assumir a presidência dos Estados Unidos, Bill Clinton tentou cumprir uma promessa de campanha: aprovar uma lei proibindo as Forças Armadas de expulsar homossexuais de suas tropas. A tarefa, porém, revelou-se inglória. Membros do Partido Republicano e da área militar se opuseram duramente. A solução foi a criação, em 1993, de uma lei meia boca conhecida pela expressão "Don't Ask, Don't Tell" ("Não Pergunte, Não Revele").
A lei, em vigor até hoje, proíbe que governo ou superiores militares perguntem sobre a orientação sexual dos subordinados. Como contrapartida, gays e lésbicas podem servir às Forças Armadas contanto que não revelem sua homossexualidade. Discrição é a regra.
Na semana passada, a veterana do Iraque Amy Brian foi dispensada depois de ser flagrada por uma colega beijando a namorada numa fila de supermercado. "[Ser lésbica] não fez a menor diferença quando me mandaram para o Iraque. Não fez a menor diferença na minha habilidade em servir o meu país", disse Amy. E completou: "Todo mundo sabia que eu era lésbica, e ninguém nunca teve problemas com isso".
De fato, grupos gays sustentam que o Exército americano fez vista grossa nos últimos anos à inclusão de homossexuais abertamente assumidos depois que o recrutamento se tornou difícil e a necessidade de tropas no exterior, mais urgente. Ou seja: na hora do aperto, tanto faz ser gay ou não. Hipocrisia é a regra.
© Folha de S.Paulo
Marcadores: coluna GLS Folha
por Vange Leonel
O colapso econômico mundial atingiu em cheio a Islândia. Em outubro, seus bancos faliram e o país teve que pedir US$ 10 bilhões ao FMI em razão da crise. O valor da moeda nacional despencou, e os cidadãos viram suas economias escoarem pelo ralo.
A população protestou nas ruas pedindo a saída do então primeiro-ministro, Geir Haarde. A chapa esquentou. Pela primeira vez em 50 anos, a polícia local usou gás lacrimogêneo para dispersar um tumulto.
Há poucos dias, Haarde pediu demissão e antecipou as eleições para maio deste ano. Uma coalizão "mezzo esquerdista, mezzo verde" indicou uma senhora de 66 anos para substituir Haarde em um mandato-tampão.
Não é a primeira mulher a exercer o cargo de primeira-ministra no país. Mas é a primeira lésbica assumida a ocupar o mais alto posto de comando, não apenas na Islândia mas no mundo inteiro.
Johanna Sigurdardottir é querida na terra do gelo: tem 73% de aprovação da população e fama de defensora dos fracos e oprimidos.
Mãe de dois filhos, ela é casada legalmente com a escritora e dramaturga Jonina Leosdottir (lá, as uniões homossexuais são equiparadas ao casamento heterossexual). Ninguém no país parece se incomodar com a orientação sexual de Sigurdardottir.
O povo espera apenas que ela dê um jeito na bagunça. Pois é, vida de lésbica na Islândia parece ser fácil -a não ser que você seja primeira-ministra.
© Folha de S.Paulo
Marcadores: coluna GLS Folha
por Vange Leonel
Até aquele momento, ela era apenas uma criança grande. Mas, quando começou a perceber uma espécie de aflição alegre no peito, achou que poderia estar sentindo aquilo que os adultos chamavam de paixão. Era incrível como, de repente, tomada pelo desejo por outra garota, a menina se transformara da noite para o dia numa adolescente às voltas com urgências do coração.
À noite, rolando na cama sem conseguir dormir, sonhava acordada com cenas tão singelas quanto excitantes: seu braço encostando de leve no braço dela; elas, lado a lado, sobre uma toalha estendida na areia olhando as estrelas; um segredo dito entre sussurros, revelando o amor mútuo e, para selar a fantasia, um beijo inocente.
Então, ela acordava de seu delírio com um pensamento chato: será que podia beijar outra mulher? Na praia, durante aquelas férias de verão, ela só vira casais formados por pai e mãe, homem e mulher, garoto e garota ou senhor e senhora.
Definitivamente, não conseguia lembrar de ter visto algum casal do mesmo sexo passeando romanticamente de mãos dadas pela orla.
Apaixonada e dona de uma coragem que só as crianças transformadas subitamente em adolescentes são capazes de ter, decidiu que, depois de pedir a amiga em namoro (tinha certeza de que ela aceitaria), seria a primeira a passear de mãos dadas com a namorada naquela praia. Seria um verão inesquecível!
© Folha de S.Paulo
Marcadores: coluna GLS Folha
Muito confuso? Um pouco. Posso ter errado nas datas acima porque, mesmo pesquisando por horas na internet, encontrei dados contraditórios e disputas quanto aos métodos e marcos iniciais de cada calendário. Afinal, tudo depende da data do nascimento de um profeta ou de outras efemérides, quase sempre imprecisas.
Enfim, o prólogo é só para justificar minha resolução de adotar um calendário diferente neste ano novo.
Tomei a decisão depois de ler a fala de fim de ano do papa Bento 16. Para meu assombro, o sumo pontífice afirmou que o ser humano está em risco de extinção por usar a noção de "gênero" como maneira de se emancipar da natureza e do Criador. Ou seja, criticou a revolução iniciada com Simone de Beauvoir, que diferenciou gênero feminino (construído socialmente) de sexo feminino (determinado biologicamente).
O papa condenou a possibilidade alentadora de cada um se reinventar como homem, como mulher ou qualquer coisa entre os dois extremos.
Por isso, insolente e irreverentemente, resolvi comemorar agora o ano 60 da "era da libertação", iniciada com a publicação de "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir. Feliz 60!
© Folha de S.Paulo
Marcadores: coluna GLS Folha
Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.
